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REFLEXÃO Em janeiro de 2007
comecei a ler “Os Miseráveis”, talvez um dos maiores
clássicos da língua francesa – magistral, mesmo
traduzido para o português.
Na companhia de Victor Hugo, sou totalmente contrário à
pena de morte.
Não leio a Bíblia Hebraica com as mesmas lentes que os
fundamentalistas, portanto, não faço as mesmas analogias
que eles. Sei que os relatos milenares do Antigo
Testamento mandam que meninos desobedientes aos pais,
homossexuais e mulheres adúlteras sejam apedrejados até
a morte.
Entendo, entretanto, que os parâmetros sociais, legais e
políticos daqueles dias não podem ser transpostos para a
atualidade, já que ninguém, em sã consciência, poderia
imaginar sociedades em que, no máximo de humanidade, se
aconselha aos senhores donos de escravos que sejam mais
compassivos quando tratarem seus vassalos.
Não leio a Bíblia fazendo um “cut and paste” dos tempos
semíticos para os atuais.
Não consigo concordar com a pena de morte; não aceito
que o Estado tome sobre si o direito de tirar a vida de
um ser humano, por mais horroroso que tenha sido o seu
delito.
Cito Victor Hugo sobre a postura do Bispo Myriel,
apelidado de Bienvenu, diante do cadafalso em “Os
Miseráveis”:
Com efeito, o patíbulo quando está levantado, é algo que
alucina. Pode-se considerar com certa indiferença a pena
de morte, não aprová-la nem condená-la, enquanto não se
tiver visto, com os próprios olhos, uma guilhotina; mas,
vendo-se uma, o choque é violento e é preciso decidir-se
ou a favor ou contra.
Uns a admiram, como de Maistre, outros a detestam, como
Beccaria. A guilhotina é a síntese de toda a lei; seu
nome é vingança; não é absolutamente neutra, e não
permite que se continue neutro. Quem a vê se amedronta
com o mais misterioso dos medos. Todas as questões
sociais levantam pontos de interrogação ao redor desse
cutelo.
O patíbulo é visão. O patíbulo não é simples armação de
madeira, não é máquina: o patíbulo é engenho inanimado
feito de madeira, ferro e cordas. Parece um ser que
possui não sei que iniciativa sombria; dir-se-ia que
essa armação vê, que essa máquina entende, que esse
mecanismo compreende, que essa madeira, esses ferros,
essas cordas têm vontade própria.
No pesadelo amedrontador em que lança a alma, o
cadafalso se mostra terrível, confundindo-se com sua
tarefa. O patíbulo é o cúmplice do carrasco; devora,
alimenta-se da carne, sacia-se com sangue. É uma espécie
de monstro fabricado pelo juiz e pelo carpinteiro, um
espectro que parece viver uma vida feita de todas as
mortes que ocasiona.
- Eu não pensava que aquilo fosse tão monstruoso. É um
erro concentrar-se a gente na lei divina a ponto de não
perceber mais a lei humana. A morte pertence somente a
Deus. Com que direito os homens ousam tocar coisa tão
desconhecida.
Nunca nutri qualquer apreço pelos ditadores,
principalmente aqueles que legitimam tortura e morte
(George W. Bush, embora eleito numa democracia, tem
sanha ditatorial).
Nunca tive qualquer admiração por Saddam Hussein, pelo
seu regime ou pela sua empáfia destruidora, mas não me
senti bem quando o vi caminhando na direção do
cadafalso.
Minhas entranhas se contorceram por ele, e depois,
quando me mostraram o vídeo de seu corpo desabando,
tremi todo.
A pena de morte não faz parte do espírito de Jesus de
Nazaré; nela não existe a palavra Misericórdia.
Para mim ver a execução do Saddam foi um choque do qual
levarei muito tempo para me restabelecer.
Soli Deo Gloria.
Pr. Ricardo Gondim
Igreja Assembléia de Deus Betesda
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