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REFLEXÃO Ando desconfiado. Mas
meu pessimismo não é desesperador. Minhas crises não me
paralisam. Reconheço que minhas inquietações podem
pender para um ceticismo ranheta, por isso luto para
manter o bom humor. Sei que não rir me faria ensimesmado
na compreensão da justiça; severo e agressivo com meus
amigos. Não quero me sentar na roda de niilistas
rancorosos, sem conseguir expressar generosidade, doçura
ou misericórdia. Quero manter-me teimoso com meus
sonhos, sem atrofiar meu coração. Se sou pessimista, meu
pessimismo não me leva a querer desistir.
Não desistirei da vida porque ainda não me cansei
existencialmente. Não estou desencantado com o mundo,
mesmo constatando tantas idiossincrasias ao meu redor.
Admiro a natureza e continuo atraído pela beleza das
serras e montanhas majestosas. Recentemente aprendi a
apreciar a imponência das araucárias com seus braços
arqueados e troncos enrugados. Não considero um tédio
ficar sentado numa varanda e contemplar o pôr-do-sol
enrubescido. Não me enfastio com minha rotina semanal.
Gosto de minha agenda lotada e de me assustar porque a
sexta-feira chega rápido.
Contemplo ruas e cidades afogadas em sangue inocente,
mas mesmo assim sou urbano; gosto das megalópoles
efervescentes. Não me incomodo com parques ou praias
lotados. Sinto-me em casa quando caminho em livrarias
entupidas de livros. Tudo me fascina numa grande cidade:
do silêncio dos museus à agitação acadêmica. Fico
engasgado de saudade, uma espécie de nostalgia
antecipada, só de pensar no dia em que terei de me
despedir deste mundo.
Não desistirei da vida porque ainda considero o ser
humano viável. Concordo com a afirmação do poeta hindu
de que toda criança nascida é um recado de que Deus
ainda crê na humanidade. Apesar do deboche dos
políticos, da inclemência do mercado e da indiferença
dos generais militares, admiro a beleza das pessoas.
Amigos ainda se abraçam, trocam mensagens de incentivo
pela internet, visitam-se em datas especiais e choram em
tragédias.
Quão admiráveis são os poetas que celebram alegrias e
pranteiam dores em versos e prosa. Reverencio a
companhia dos profetas que levantam o dedo em riste
contra injustiças. Admiro bons samaritanos que se
embrenham pelas savanas africanas para aliviar o
sofrimento de exilados de guerra. Emociono-me com pais
que adotam filhos em orfanatos.
Creio na humanidade por mais que odeie o desdém dos
ricos que acumulam fortunas incalculáveis; por mais que
rejeite o descaso de religiosos que priorizam suas
instituições e resfolegam suas certezas intolerantes em
eternas cruzadas; por mais que me revolte com a decisão
de um país bombardear outro. O sorriso inocente das
crianças e a fragilidade dos anciãos me dão vontade de
cantar “Gracias a la vida”, com Violeta Parra.
Não desistirei da vida porque ainda acredito em ideais.
Admito que vivo no meio de uma ressaca utópica. Caíram
muros, arriaram-se bandeiras ideológicas, e antigos Dom
Quixotes desobrigaram-se de suas heróicas empreitadas.
Não sou fatalista. Não creio que a história deslize
sobre trilhos inexoráveis e luto para não fugir da arena
onde se escreve o futuro. Insisto em não me conformar
com a trágica sorte dos miseráveis. Não permitirei que
me domestiquem com a pregação de que não há mais
História com “H” maiúsculo. Acredito que, mesmo na
remota possibilidade do aniquilamento da atual
civilização, saberemos nos reinventar e ressurgiremos
das cinzas.
Não desistirei da vida porque aceito a mensagem do
Sermão da Montanha. O bem triunfará sobre a maldade. Não
antevejo um porvir tenebroso. Partilho do prognóstico de
Jesus: prevalecerão os humildes, os mansos e os puros de
coração. Pressinto que um dia justiça e paz se beijarão;
verdade e misericórdia darão as mãos; e ninguém será
marginalizado pela cor de sua pele ou por sua cultura.
Acredito que os fracos e esquecidos deste mundo terão o
brado de vitória da hora final, pois Deus vingará a
sorte deles.
Contudo, não tento pintar meu mundo com as cores da
ilusão. Nutro um pessimismo sem quimeras. Não consinto
com frases de efeito nem me deixo ludibriar com
promessas irresponsáveis. Repito para mim mesmo: não
existem receitas fáceis para nada. Percebo alguns
espetáculos musicais, religiosos ou esportivos como
meras tentativas de disfarçar a indiferença mundial que
mata os filhos de Deus em todos os continentes.
Não tenho medo de mostrar minhas desilusões, pois
conheço o legado de Isaías, Jeremias e Malaquias. Eles
amargaram ostracismo por se distanciarem dos falsos
profetas que viviam prometendo paz, enquanto o juízo se
avizinhava. Só eles sabiam que não se contaminaram de um
espírito mórbido; e compreendiam que vaticinavam
castigos não por estarem fadigados, mas por almejarem um
mundo melhor. Eles intuíam que, muitas vezes, só de
escombros poderia surgir algo novo. Seus lamentos não
expressavam prostração, mas um convite para que o povo
despertasse e admitisse: suas escolhas terminariam em
ruína.
Eu também não estou estafado. Não pretendo desistir.
Continuo sonhando com um outro mundo possível, e por ele
vou orar e trabalhar até meu último suspiro.
Soli Deo Gloria.
Pr. Ricardo Gondim
Igreja Assembléia de Deus Betesda
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