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REFLEXÃO Não há maior
dificuldade existencial do que os silêncios divinos. O
“Deus abscondito” representa o mais gigantesco enigma
filosófico e teológico. Um nó górdio que ninguém desata.
O relato bíblico não é homogêneo. Tanto a narrativa
judaica como as propostas mais conceituais e
doutrinárias das epístolas cristãs revelam que Deus
elege tempos e hierarquiza anos. Há períodos da história
em que sua presença é mais marcante. Em outros,
exuberante. Contudo, os hiatos de sua ausência se
alongam por períodos que parecem não ter mais fim. Deus
é mais ausente que presente.
É duro pensar, pior afirmar, mas algumas pessoas não
representarão absolutamente nada na trama humana; sequer
serão conhecidas. Milhões morrem anônimos. Para a enorme
maioria, o papel mais importante que desempenharão
consistirá em sobreviver e cuidar dos que os sucederem;
e estes repetirão o mesmo roteiro.
A vida da grande maioria se desenrolará sem milagres,
sem intervenções sobrenaturais e sem a presença
transcendente de Deus. Eles terão que trabalhar de sol a
sol para comer, viverão à mercê das pestes e pragas,
precisarão lutar contra as inclemências do clima.
Sujeitos, inclusive, a acidentes naturais como ciclones,
tufões e terremotos.
Cada um deve viver seu dia a dia com a certeza da
existência de Deus, porém sabendo que ele não alterará,
indiscriminadamente, a ordem que ele mesmo estabeleceu.
Cada um precisa orientar sua vida e valores, se
esforçando para controlar os perigos existenciais,
criar, escrever e transcender como se Deus não
existisse.
Cada um deve fazer o que é reto não porque existe um
Deus que fiscaliza do alto do céu, mas porque a virtude
conspira a favor da vida e do bom convívio entre os
humanos. Ninguém deve orientar seus valores porque está
sendo, por assim dizer, monitorado pelo grande olho
divino, mas porque existe virtude intrínseca nos
comportamentos que exigem obrigação de todos.
Cada um deve encarar os silêncios divinos não como
descaso, mas como espaço para a liberdade. Viver,
portanto, é uma aventura sem garantias. Não é possível
uma existência bonita, criativa sem abrir mão de uma
obsessiva necessidade de segurança. É pobre buscar
construir diques que represem as águas das tempestades;
erguer fossos para que possíveis inimigos não invadam os
castelos; esterilizar todos ambientes para que doenças
não se alastrem. Como é fútil acreditar que existe um
futuro sem ameaças.
Resta aprender a viver sem a pretensão de engomar o
mundo e retirar dele seus percalços. Resta recusar a
religião que tenta transformar Deus numa divindade que
premia os que merecem com um “algo mais” que ajuda a
contornar os perigos da vida com suas vicissitudes.
Resta desaprender o desejo de ser feliz. Resta abrir mão
de querer salvar a vida, pois os que tentaram se
condenaram a perambular, sem jamais conseguir viver.
A propósito disso, lembro-me de uma história
extraordinária, que descreve o diálogo entre uma freira
americana cuidando de leprosos no Pacífico e um
milionário texano. O milionário, vendo-a tratar daqueles
enfermos miseráveis, disse: "Irmã, eu não faria isso por
dinheiro nenhum no mundo”. E ela respondeu: "Eu também
não, meu filho"
Soli Deo Gloria.
Pr. Ricardo Gondim
Igreja Assembléia de Deus Betesda
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