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Areia por todos os lados
Ricardo Gondim

REFLEXÃO

Por algum motivo o filme “Casa de Areia” não me sai da cabeça. Desde que o vi não deixo de pensar em sua mensagem de rara beleza.

O drama se desenrola em 1910 quando o português Vasco (Ruy Guerra) convence sua esposa grávida, Áurea, (Fernanda Torres) e a mãe dela, Dona Maria (Fernanda Montenegro), a saírem em busca de um sonho: começar vida nova em terras possivelmente prósperas, compradas por ele.

O sonho, porém, se transforma em pesadelo quando, após uma longa e cansativa viagem junto a uma caravana, o trio descobre que a propriedade fica em um lugar totalmente inóspito, rodeado de areia por todos os lados e sem nenhum indício de civilização por perto.

Áurea quer desistir e voltar para o lugar de onde vieram, mas Vasco insiste em ficar e constrói uma casa para servir de moradia. Após serem abandonados pelos demais integrantes da caravana, um acidente mata Vasco. Áurea e Dona Maria, sozinhas, vêem-se obrigadas a lutar contra as constantes tempestades de areia. Elas partem em busca de ajuda e terminam por encontrar Massu (Seu Jorge), um homem que nunca conheceu outra realidade. Massu passa a ajudá-las, levando comida e sal para que Áurea e Dona Maria sobrevivam na casa recém-construída. Massu, negro, torna-se responsável pelo enraizamento das duas mulheres na terra, dando-lhes mais que uma frágil estabilidade. Contudo, Áurea passa o tempo inteiro a alimentar o antigo desejo de fugir daquele lugar. Ela quer ir embora de qualquer jeito para retomar sua vida antiga – bem melhor do que a atual. Mas, simplesmente, não consegue. Frustra-se em suas tentativas e a cada plano de escape, acontece um imprevisto.

O filme busca – e consegue – consolidar a idéia de que as pessoas não possuem um controle absoluto sobre os rumos da vida e, que, muitas vezes, por mais que se tente é impossível antecipar-se aos incidentes que acontecem. A trama mostra, graficamente, como a grande maioria não consegue dar aquela grande guinada na vida. Quase sempre, acabam impotentes para contornar os sucessivos imprevistos: pobreza, doenças, acidentes e, finalmente, a velhice. Num instante crucial os sonhos são adiados ou se perdem para sempre.

A humanidade luta para convencer-se que é sujeito do seu destino. Mas essa falsa onipotência apenas anestesia a angústia universal de saber que ninguém é dono do seu nariz. Chico Buarque expôs essa tênue soberba em “Roda Viva”:

“A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega o destino pra lá”.

Eclesiastes, o mais existencialista de todos os autores bíblicos, afirmou coisas parecidas:

“Percebi ainda outra coisa debaixo do sol: os velozes nem sempre vencem a corrida; os fortes nem sempre triunfam na guerra; os sábios nem sempre têm comida; os prudentes sem sempre são ricos; os instruídos nem sempre têm prestígio; pois o tempo e o acaso afetam a todos. Além do mais, ninguém sabe quando virá a sua hora: Assim como os peixes são apanhados numa rede fatal e os pássaros são pegos numa armadilha também os homens são enredados pelos tempos da desgraça que caem inesperadamente sobre eles” (Eclesiastes 9.11-12).

A realidade brutal da vida se impõe com maior força que o fútil esforço de controlar o futuro – ninguém conseguiria trazer todas as variáveis da existência sob seu domínio. Vale lembrar que isso não significa que Deus não tenha poder para controlar cada mínimo detalhe da vida de todos os humanos ou que ele se negue em repartir com os humanos a prerrogativa de controlar todas as possibilidades do futuro. Deus simplesmente não criou o mundo para prender todos os acontecimentos dentro de uma engrenagem mecanicamente ajustada. Ele não colocou os humanos na terra como um engenheiro que desenha uma locomotiva para deslizar sobre trilhos.

Deus criou o universo com um grau de liberdade que possibilita, inclusive, acidentes. Existe acaso cósmico.

Viver não consiste no esforço para dominar aquilo que os filósofos chamam de “contingência” ou “chance”. Viver é bailar como um lençol que se deixa levar pelo vaivém indomável da bruma. Viver é admitir que as trilhas e encruzilhadas que todos enfrentam estão inexploradas, e que cada pessoa precisa abrir caminho nessa estrada virgem.

Qualquer coisa pode acontecer a cada instante. O improvável espera pelas suas presas como um caçador. Há momentos em que se colhe o que foi semeado e o tempo passa sem sobressaltos. Porém, chegam ocasiões em que a vida atola em areais, matando os sonhos. Não existe promessa divina de que as tempestades de areia nunca acontecerão.

Portanto, cada um precisa aprender a navegar sem olhar para os lados, remando sem levar em conta os ventos contrários. O porto seguro fica perto, mas, ao mesmo tempo, infinitamente longe.

Viver é resistir.
Viver é teimosia.

Soli Deo Gloria.

Pr. Ricardo Gondim
Igreja Assembléia de Deus Betesda
Avenida Engenheiro Alberto de Zagottis, 1000
Jardim Marajoara, CEP 04675-230

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