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REFLEXÃO
Por algum motivo o
filme “Casa de Areia” não me sai da cabeça. Desde que o
vi não deixo de pensar em sua mensagem de rara beleza.
O drama se desenrola em 1910 quando o português Vasco
(Ruy Guerra) convence sua esposa grávida, Áurea,
(Fernanda Torres) e a mãe dela, Dona Maria (Fernanda
Montenegro), a saírem em busca de um sonho: começar vida
nova em terras possivelmente prósperas, compradas por
ele.
O sonho, porém, se transforma em pesadelo quando, após
uma longa e cansativa viagem junto a uma caravana, o
trio descobre que a propriedade fica em um lugar
totalmente inóspito, rodeado de areia por todos os lados
e sem nenhum indício de civilização por perto.
Áurea quer desistir e voltar para o lugar de onde
vieram, mas Vasco insiste em ficar e constrói uma casa
para servir de moradia. Após serem abandonados pelos
demais integrantes da caravana, um acidente mata Vasco.
Áurea e Dona Maria, sozinhas, vêem-se obrigadas a lutar
contra as constantes tempestades de areia. Elas partem
em busca de ajuda e terminam por encontrar Massu (Seu
Jorge), um homem que nunca conheceu outra realidade.
Massu passa a ajudá-las, levando comida e sal para que
Áurea e Dona Maria sobrevivam na casa recém-construída.
Massu, negro, torna-se responsável pelo enraizamento das
duas mulheres na terra, dando-lhes mais que uma frágil
estabilidade. Contudo, Áurea passa o tempo inteiro a
alimentar o antigo desejo de fugir daquele lugar. Ela
quer ir embora de qualquer jeito para retomar sua vida
antiga – bem melhor do que a atual. Mas, simplesmente,
não consegue. Frustra-se em suas tentativas e a cada
plano de escape, acontece um imprevisto.
O filme busca – e consegue – consolidar a idéia de que
as pessoas não possuem um controle absoluto sobre os
rumos da vida e, que, muitas vezes, por mais que se
tente é impossível antecipar-se aos incidentes que
acontecem. A trama mostra, graficamente, como a grande
maioria não consegue dar aquela grande guinada na vida.
Quase sempre, acabam impotentes para contornar os
sucessivos imprevistos: pobreza, doenças, acidentes e,
finalmente, a velhice. Num instante crucial os sonhos
são adiados ou se perdem para sempre.
A humanidade luta para convencer-se que é sujeito do seu
destino. Mas essa falsa onipotência apenas anestesia a
angústia universal de saber que ninguém é dono do seu
nariz. Chico Buarque expôs essa tênue soberba em “Roda
Viva”:
“A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega o destino pra lá”.
Eclesiastes, o mais existencialista de todos os autores
bíblicos, afirmou coisas parecidas:
“Percebi ainda outra coisa debaixo do sol: os velozes
nem sempre vencem a corrida; os fortes nem sempre
triunfam na guerra; os sábios nem sempre têm comida; os
prudentes sem sempre são ricos; os instruídos nem sempre
têm prestígio; pois o tempo e o acaso afetam a todos.
Além do mais, ninguém sabe quando virá a sua hora: Assim
como os peixes são apanhados numa rede fatal e os
pássaros são pegos numa armadilha também os homens são
enredados pelos tempos da desgraça que caem
inesperadamente sobre eles” (Eclesiastes 9.11-12).
A realidade brutal da vida se impõe com maior força que
o fútil esforço de controlar o futuro – ninguém
conseguiria trazer todas as variáveis da existência sob
seu domínio. Vale lembrar que isso não significa que
Deus não tenha poder para controlar cada mínimo detalhe
da vida de todos os humanos ou que ele se negue em
repartir com os humanos a prerrogativa de controlar
todas as possibilidades do futuro. Deus simplesmente não
criou o mundo para prender todos os acontecimentos
dentro de uma engrenagem mecanicamente ajustada. Ele não
colocou os humanos na terra como um engenheiro que
desenha uma locomotiva para deslizar sobre trilhos.
Deus criou o universo com um grau de liberdade que
possibilita, inclusive, acidentes. Existe acaso cósmico.
Viver não consiste no esforço para dominar aquilo que os
filósofos chamam de “contingência” ou “chance”. Viver é
bailar como um lençol que se deixa levar pelo vaivém
indomável da bruma. Viver é admitir que as trilhas e
encruzilhadas que todos enfrentam estão inexploradas, e
que cada pessoa precisa abrir caminho nessa estrada
virgem.
Qualquer coisa pode acontecer a cada instante. O
improvável espera pelas suas presas como um caçador. Há
momentos em que se colhe o que foi semeado e o tempo
passa sem sobressaltos. Porém, chegam ocasiões em que a
vida atola em areais, matando os sonhos. Não existe
promessa divina de que as tempestades de areia nunca
acontecerão.
Portanto, cada um precisa aprender a navegar sem olhar
para os lados, remando sem levar em conta os ventos
contrários. O porto seguro fica perto, mas, ao mesmo
tempo, infinitamente longe.
Viver é resistir.
Viver é teimosia.
Soli Deo Gloria.
Pr. Ricardo Gondim
Igreja Assembléia de Deus Betesda
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